sexta-feira, 29 de julho de 2011

Menina

Conheçam esta poetisa que transforma palavras em delicadeza - Maria Helena - do blog Pintando o Sete com a Vida.
Clique, aumente o som e leia comigo:

Ainda sou aquela menina
que encontrou a sua imagem
num grande baile de máscaras

Ainda sou a saudade
que se despediu da infância
sem se desfazer dos brinquedos

Ainda sou a liberdade
de pés descalços na vida
em busca de terra desconhecida

Ainda sou aquela menina
vestida da cor do sonho
acordada na realidade

Ainda sou menina peralta
que desfaz caminhos prontos
pra não perder a cor dos dias

Ainda sou menina sorriso
que acha sempre uma graça
Nas teias tecidas na vida






Imagem Pinterest
Música - Passos de uma Bailarina



quarta-feira, 27 de julho de 2011

Filigrana


Zélia Guardiano é uma escritora que surpreende a cada dia com sua produção poética moderna e instigante.
Não deixem de visitá-la em seu blog Ad Litteram e surpreendam-se a cada poema.

Auto - Retrato
(auto retrato)
Clique, aumente o som e leia comigo:

 

A luz
Do poste
De iluminação
Pública
Como se viesse
Da antiguidade
Greco-romana
Trespassa
A planta
Do vaso
Da varanda
Projetando
Na parede
Rica filigrana
De beleza
Única

Cada
Particularidade
Cada
Detalhe
Cada
Minudicência
Da fictícia
Ourivesaria
Encanta-me
Põe-me
Em estado
De graça
E me faz
Assim
Pensar:

Como seria?



Imagem-Pinterest
Música Medieval-Filme Senhor dos Anéis





sexta-feira, 22 de julho de 2011

Solidão


Conheçam um artista plástico e poeta de mão cheia, embora humildemente não se ache assim, no entanto, vejam que beleza sua poesia abaixo e descubram mais um poeta maravilhoso nesta blogosfera.
Visitem as palavras de Marcantonio em seu blog Diário Extrovertido.




 
Quando a solidão chegou,
Ela me tornou único.
Eu que me julgava vários,
Eu, de muitos itinerários
Compartilhados,
Não era mais que um!
Sem partes, sem pontes,
Sem frações, sem múltiplos,
Sem púlpitos.

Quando a solidão chegou,
Ela me amarrou a mim.
Reforçou a membrana
Das minhas fronteiras
Donde calado percebo
Que o fronteiriço é outro
Perambulando cego
Preso aos fios da rede
De solidões unitárias:

A solidão dos nomes;
A solidão dos números;
A solidão dos olhos;
A solidão das sequências;
A solidão das alternâncias;
A solidão dos adjetivos;
Dos adjuntos temporários
E a solidão dos solidários.

Quando a solidão chegou,
Ela urinou nos meus pés
E demarcou um território.











Imagem-Pinterest







quinta-feira, 14 de julho de 2011

Apresentação



Queridos amigos, 

Criei este novo espaço para dar lugar à Poesia.  
Como sabem, sempre fui apaixonada por ela e este blog terá, não só lugar para os mais renomados poetas e escritores da nossa língua, como aos novos e excelentes que temos em nossa blogosfera, aqueles que amam e respeitam as palavras, transformando-as, dando-lhes vida e deixando mensagens que engrandecem o espírito, acalmam os sentidos e conduzem-nos a outros mundos, de lirismo, beleza e arte.

Comecemos então pelo grande e inesquecível poeta Carlos Drummond de Andrade. Clique abaixo, aumente o som, ouça minha narração e acompanhe junto a poesia a seguir.

    Procura da poesia
Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.

O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.


Carlos Drummond de Andrade - (1902-1987)



Música: Kiss the Rain-Yiruma